segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O Zen Nas Artes Marciais



Texto extraído do livro O Zen nas Artes Marciais, de Joe Hyams, Ed. Pensamento.


Meu parceiro e eu praticávamos shomen uti, o primeiro movimento do handori no kata, na prática do Aikido. O exercício exigia de mim, na defesa, que evitasse o golpe direto no rosto movendo-me na direção do braço do agressor e projetando o atacante para trás, ao mesmo tempo em que aplicava-lhe a mão no queixo, usando a meu favor o peso do meu corpo.


Atraquei-me várias vezes com meu parceiro, mas fui incapaz de movê-lo do lugar. No fim, já algo descontrolado, recorri à força física, e ele tombou no tatami. Senti, então um leve toque no ombro; voltando-me dei com a instrutora de cenho franzido.


Disse-me com ar de reprovação: - Você encarou o ataque dele de frente. Por ser forte, você o afastou, mas você não barrou a força dele, nem a intenção dele de atacar.Quando alguém o ataca, está levando você contra você o seu Ki, que começa fluir no momento em que ele decide atacá-lo, ainda antes que o corpo dele se mexa. Você não precisa absolutamente tocar-lhe o corpo, caso possa redirecionar a mente dele e o fluxo do seu ki. Esse é o segredo; afaste a mente dele de você e o corpo irá atrás.


E como posso afastar a mente dele? - perguntei.
Não agredindo o fluxo do seu ki, nem deixando que ele perceba a sua intenção. Não puxe, nem empurre, nem chute. Toque-lhe apenas de leve e gentilmente o corpo, conduzindo-o para onde você quer. Desse modo, a mente dele não é contrariada e o corpo dele cederá.


O princípio subjacente ao Aikido - prosseguiu ela - é o de entregar-se de tal forma à força que se aproxima, que ela se torne incapaz de feri-lo, e ao mesmo tempo mudar-lhe a direção, empurrando-a por trás, em vez de buscar encará-la de frente. O praticante de Aikido nunca vai de encontro à força do oponente. Ao contrário, dá outro rumo à força que vem na sua direção.


"O princípio de evitar a luta e nunca enfrentar diretamente a força de um agressor é a essência do Aikido. Esse mesmo princípio vale para os problemas que a vida nos traz. O praticante habilidoso de Aikido é tão esquivo quanto a verdade do Zen; converte-se num Koan - um quebra-cabeça que nos escapa quanto mais esforço fazemos para resolvê-lo. É como a água que se esvai entre os dedos de quem procura agarrá-la. A água não vacila antes de se entregar, pois no instante em que os dedos começam a se fechar sobre ela, ela escapa - não pela própria força, mas valendo-se da pressão que é aplicada sobre ela. Talvez seja por isso que um dos símbolos do Aikido é a água."


Pouco depois da aula tive a oportunidade de testar parte dos princípios do Aikido que a instrutora me transmitira. Durante um encontro de negócios, percebi que estava prestes a um desentendimento com um associado. Decidido a contorná-lo, se possível, procurei não reagir à investida inicial, fugindo do enfrentamento direto. À medida que a discussão prosseguia, admiti que sua argumentação tinha méritos, e ao mesmo tempo tentei dar outro rumo à sua exaltação. Permitindo que meu "oponente" gastasse sua energia e exaltação, e não respondendo nem lhe retrucando, evitei uma dicussão. Ele acabou encolhendo os ombros e se foi.


A leveza triunfa da dureza; a fraqueza, da força. O flexível leva sempre vantagem sobre o rígido: - eis o princípio do controle das coisas pela acomodação a elas, do domínio através da adaptação.

LAO-TSU

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Belas paisagens de Tóquio...

Em uma de minhas muitas "viagens" pela NET, achei este bonito video num videolog muito interessante: http://vimeo.com/sugoi

Ofereço-o a vocês, visitantes ....



Soothing Glimpses of Tokyo from Sugoi on Vimeo.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Corpo não mente





Achei este ótimo texto de Paulo Leminski , e não resisti à tentação de publicá-lo no meu blog. Aproveitem....
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"Integrar mente e corpo é voltar ao paraíso
que só conseguimos experimentar em momentos privilegiados."

Quando Francisco Xavier, o missionário jesuíta, aportou no Japão, na crista das navegações, sua catequese produziu milhares de conversões e o catolicismo começou a se espalhar pelo país. Nas cartas que escreveu para seus superiores em Roma, Xavier descreve com júbilo os progressos do apostolado na Terra do Sol Nascente. Nas mesmas cartas, porém, queixa-se contra os adeptos de urna seita chamada zen (deve ser a primeira menção ao zen na Europa).


Não consigo converter nenhum dos adeptos dessa seita, Xavier confessa.

Não mostram nenhum respeito pelas coisas sagradas, riem de tudo e debocham dos símbolos de nossa religião, prossegue.


A razão secreta do insucesso de Xavier com os praticantes do zen reside na radical diferença entre as relações corpo/mente (ou corpo/alma) no catolicismo e no zen. Todas as práticas zen (o zen é - sobretudo - uma prática) visam atingir o ponto de fusão corpo/mente, aquele lugar alfa onde essa distinção (vista como erro e ilusão) não seja mais possível. Visariam, de certa maneira, uma espiritualização de corpo e uma corporificação da mente e do espírito. Isso é muito visível nas artes marciais, judô, kendô, caratê, aikidô, todas empapadas do zen. Quem pratica artes marciais, aprende logo que o corpo não é urna máquina governada por um comandante genial chamado mente.


Na hora de aplicar um golpe, sente-se claramente que o corpo pensa. Impossível não ver os paralelos entre essa experiência e a vivência do sexo que, para ser realizado plenamente, exige um momento de fusão total entre um corpo que sente e uma mente que dirige. Não se pode obter uma ereção ou um orgasmo pensando em reforma tributária...


Ao tentar converter superiores da seita zen, com a frase básica "salve tua alma", Xavier esbarrou num obstáculo intransponível: os monges zen não podiam conceber que a alma fosse urna coisa que a gente possuísse e pudesse ter um destino distinto do corpo, suas peripécias, misérias e esplendores. A arte de um judoca ou de um carateca não é "una cosa mentale", como disse Leonardo da pintura. É essencialmente unitária, anterior ou posterior à dicotomia corpo/mente que impregna, sub-repticiamente, todo o pensamento ocidental de Descartes para cá.


As origens desse divórcio no indissociável são, claro, de natureza religiosa: a mente do racionalismo ocidental é a filha leiga da alma salvável do cristianismo. Sem direito a além-túmulo, porém. Mas não pense que coisa tão grave teve raízes apenas filosóficas na mente de algum pensador isolado.


A sociedade urbano-industrial, através dos métodos de trabalho que impôs, promove a dissociação corpo/mente mais do que qualquer tratado de metafísica. É uma força desagregadora, destribalizante, atomizante. Não há lugar para o corpo na grande fábrica, a não ser como a unidade de trabalho, nunca como lugar de prazer e satisfação sensorial.


E a alma toma os novos nomes de "habilitação profissional", "treinamento especializado", abstrações no seio dessa imensa abstração que é a anônima sociedade industrial-urbana.


Eu mando, você obedece


Escravos e senhores. Nobres e servos. Patrões e empregados. Técnicos e operários. Nada distingue mais o homem dos animais do que a divisão de trabalho, nossa grande força e também a fonte de nossas fraquezas.

Foi através da divisão do trabalho que o homem multiplicou seus poderes sobre a natureza numa velocidade fantástica: há apenas 30 mil aros tudo o que tínhamos para enfrentar a hostilidade do meio ambiente eram armas de pau, pedra e osso e vestimentas de peles de animais. Neste prazo biologicamente curtíssimo, saltamos da lança de madeira para o computador, a eletricidade, a engenharia genética e a energia nuclear. Isso só foi possível porque o homem, em todas as latitudes, especializou determinados grupos de sociedade em tarefas específicas. Qualquer tigre sabe fazer tudo o que qualquer tigre faz, e nada além disso. Todo tigre é um inteiro. Nós somos fragmentados. Uns plantam, outros vendem. Uns mandam, outros obedecem. Uns celebram cerimônias aos deuses, outros carregam pedras para erguer pirâmides, templos e catedrais.


Quem não vê que a dicotomia mente/corpo é uma projeção e uma decorrência da divisão do trabalho, a divisão interiorizada em nós? A mente é uma metáfora da classe dirigente servida pelo corpo.


A divisão do trabalho é o verdadeiro Pecado Original, aquele que nos expulsa do paraíso e nos lança na grande aventura da vida e do mundo. A serpente sugere, Eva colhe o fruto proibido, Adão o come... Integrar mente e corpo é voltar ao paraíso que só conseguimos experimentar em momentos privilegiados: às pessoas desintegradas, o paraíso também é vivido sob a forma de fragmento.


Um dos momentos mais radicais da divisão do trabalho está na separação entre trabalho braçal e intelectual. Essa divisão começa no mundo religioso. Sacerdotes e agricultores, monges e guerreiros, padres e fiéis, são o modelo remoto da atual divisão entre técnicos e teóricos diante da mão-de-obra.


E certas práticas religiosas como o jejum, a castidade, o silêncio e a busca do desconforto físico concorreram poderosamente para acelerar a cisão entre corpo e mente. Não seria exagero imaginar que a noção da "alma" tenha nascido dessas práticas onde o corpo é tratado como um inimigo, fera que deve ser domada, humilhada e reduzida a ser uma montaria dócil sob as rédeas do "Espírito".


No século passado, quando começa o mando industrial de hoje, aparece a figura do "intelectual", o homem/mente por excelência, vivendo apenas na atmosfera rarefeita do "mundo das idéias". Com o intelectual, seus afins, o técnico, o especialista, o pensador...


Entre um corpo e uma mente, mil anos-luz de vazio onde se criam monstros e demônios, duendes e neuroses.


Os demônios se chamavam Lucifer, Belzebu, Asmodeu, Belial. Hoje chamam-se neurose, paranóia, esquizofrenia, mania. É perigoso separar aquilo que, por natureza, é uno e inteiro.

De volta à unidade

O retorno ao paraíso perdido, a re-união mente e corpo não pode sequer ser sonhada, em termos integrais.
Essa estranha entidade que é o ser humano, que somos nós, resulta irremediavelmente cindida.
O próprio exercício disso que se chama "razão" parece estar ligado, carne e unha, com a dissociação entre uma metade que "pensa" e um corpo que obedece. Estamos condenados à razão.

Mas é essa mesma razão dissociativa que pode nos aproximar, por momentos iluminados, da unidade perdida, em algum ponto-anos-luz no espaço/tempo. Nós buscamos essa unidade na prática do lúdico e do erótico, na arte, no esporte, no amor e no sexo. Nessas áreas do in-utensílio, ela vida além da tirania do lucro e da utilidade. Ao brincar e jogar, estamos salvos, livres. E de volta.
Para o zen, é na própria vida cotidiana que está o segredo. E preciso resgatar a grandeza infinita dos gestos simples e "elementares". Cuidar da vida. Curtir a minúcia. Lavar a própria roupa. A louça. Arrumar a casa. Fazer sua comida. Tomar banho como quem realiza um ato sacro. Recuperar o prazer da prática dos atos primários. Saber que ser matéria, caralho e buceta, boca e estômago, é uma dignidade e um esplendor.

Dá trabalho. Mas, para brilhar, as estrelas têm que arder, até o glorioso fim.

RUMO AO SUMO

Disfarça, tem gente olhando.
Uns, olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.
Outros, olham de bando,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
sempre tem gente olhando,
olhando ou sendo olhado.

Outros olham para baixo,
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham para dentro,
já que dentro não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.

(P. L.)


in Revista Corpo a Corpo, 1987, p. 97-98.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

terça-feira, 29 de julho de 2008

Sensei Shikanai em Israel

Alguns vídeos do Shihan Ichitami Shikanai em um seminário realizado este ano em Israel. Vídeos do Sensei Shikanai na net é coisa muito rara, portanto, aproveitem.....








terça-feira, 15 de julho de 2008

Segredos do Budo





Um dia, um samurai, grande Mestre de sabrequis obter o verdadeiro espírito da esgrima. Era durante a época Tokugawa. À meia noite, foi a um santuário de Kamakura, subiu os numerosos degraus que levam até lá e rendeu homenagem ao Deus local, Hachinam. Hachinam, no Japão, é um grande Bodhisattva que se tornou o protetor do Budo. O Samurai rendeu-lhe homenagem. Ao descer os degraus, a meia noite, ele sentiu, debaixo de uma grande árvore, a presença de um monstro em frente dele. Por intuição, ele desembainhou o seu sabre e num instante matou o monstro. O sangue jorrou e derramou-se pelo chão. Ele matou-o inconscientemente.

O Bodhisattva Hachinam não lhe deu o segredo do Budo. Mas graças a esta experiência, no caminho de regresso, ele compreendeu-o. A intuição e a acção devem surgir simultâneamente. Não pode haver pensamento na prática do Budo. Não há um só segundo para pensar. Quando agimos, a intensão e a ação devem ser simultâneos. Se dissermos : " O monstro está ali, como matá-lo? ", se hesitamos, só o cérebro frontal entra em ação. Ora, o cérebro Thalamus (cérebro profundo) e ação devem coincidir, no mesmo instante, idênticos.

Assim como o reflexo da Lua sobre um curso d'água, não fica imóvel, se bem que a Lua não se mexa. É a consciência Hishiryo.

texto retirado do blog: http://alexdacosta.blogspot.com/